Carlos Martins da Silva, urologista fala ao “Atlas da Saúde”

Carlos Martins da Silva, urologista fala ao “Atlas da Saúde”

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No âmbito da campanha de sensibilização “Na Bexiga Mando Eu” que alerta para o impacto da Bexiga Hiperativa na vida dos doentes, o Atlas da Saúde esteve à conversa com o Professor Carlos Martins da Silva, urologista, que, para além desta síndrome, nos falou sobre a importância de manter a bexiga saudável.
A bexiga é, essencialmente, um órgão de armazenamento de urina e cujo esvaziamento fica dependente da nossa vontade geralmente a partir dos 2 anos de idade. Este controlo voluntário permite-nos esvaziar a bexiga quando achamos que estamos na altura e local apropriados, antecipando ou atrasando a micção, se necessário.

Esta capacidade que temos de controlar a bexiga, e que nos facilita a nossa vida social, é o resultado da conjugação de vários mecanismos, com necessidade de integração perfeita de circuitos neurológicos e neuromusculares, ainda não completamente esclarecidos.

Por outro lado, este controlo complexo da micção está sujeito a alterações quer no sistema nervoso quer na bexiga que acarretam mau funcionamento desta – as chamadas disfunções miccionais.

O que é a Bexiga Hiperativa e quais os seus sintomas?

Dizemos que estamos perante um doente com Síndrome da Bexiga Hiperativa ou simplesmente Bexiga Hiperativa quando o doente se queixa de urgência (ou imperiosidade) miccional. A urgência miccional é uma sensação desagradável, de desconforto que se define como uma vontade forte, súbita e inadiável, de urinar. Se o doente não tem acesso fácil a instalações sanitárias, acaba por “não chegar a tempo” e perde urina. Nestes casos, dizemos que estamos perante um caso de Bexiga Hiperativa com incontinência urinária (Bexiga Hiperativa “molhada”). O doente para evitar, quer a sensação de desconforto associada à urgência, quer a incontinência urinária adopta estratégias comportamentais como o aumento da frequência urinária.

Qual a sua incidência em Portugal? E quem mais sofre com estas disfunções: homens ou mulheres?

Esta doença é mais comum do que se julga, embora não existam dados reais sobre a incidência da doença em Portugal.

No entanto, estima-se que cerca de 10-15% da população europeia sofre de Bexiga Hiperativa, afetando tanto homens como mulheres, de todas as idades. Uma parte significativa destes doentes tem a sua qualidade de vida muito alterada, necessitando por isso de tratamento.

Como é feito o diagnóstico de Bexiga Hiperativa?

O diagnóstico de Bexiga Hiperativa é relativamente fácil porque assenta na identificação dos sintomas, nomeadamente o sintoma principal – a urgência miccional. Mas essa facilidade não nos deve fazer esquecer que o diagnóstico de Bexiga Hiperativa é um diagnóstico de exclusão, isto é, precisamos de verificar se não há outras doenças que podem provocar os mesmos sintomas. Entre estas, destaco os cálculos (“pedras”) vesicais ou ureterais, as infeções urinárias, as doenças da próstata no caso dos homens e os casos embora não frequentes de neoplasia da bexiga. Assim, devem ser incluídos na avaliação destes doentes exames para despistar estas doenças.

O que contribui para o seu subdiagnóstico?

Infelizmente a Bexiga Hiperativa é muitas vezes subdiagnosticada. Trata-se de uma doença por um lado frequentemente “escondida” pelos doentes e por outro lado não procurada pelos médicos.

Por constrangimento os doentes não se queixam aos seus médicos ou aceitam a doença como uma condição normal da idade e do envelhecimento, com a qual têm que aprender a viver. É preciso lutar ativamente contra essa postura e fazer passar a mensagem que vale a pena procurar ajuda. Dar esse passo é fundamental, pois adiar a procura de ajuda médica é uma opção que prejudica o tratamento.

Qual o tratamento?

O tratamento baseia-se na adopção de medidas comportamentais e no tratamento com fármacos para melhorarmos os sintomas, a fim de aumentar a qualidade de vida do doente.

As principais medidas comportamentais são a redução de peso, a ingestão moderada de líquidos (1-1,5 l/dia), evitar as bebidas gaseificadas e café, e o abandono do tabaco.

Também em alguns casos pode ser aconselhado ao doente que tente deliberadamente “lutar contra a urgência miccional” e aumentar o período entre as micções. Claro que este “treino vesical” em que o doente tenta atrasar a micção deve ser realizado de um modo progressivo e recomenda-se que no início o doente o faça apenas em casa, para assim evitar “acidentes” desagradáveis.

Uma outra estratégia de “luta contra a urgência miccional” com bons resultados é o recurso à fisioterapia do pavimento pélvico. Estes exercícios tornam o doente mais confiante e mais apto a limitar as perdas de urina quando estas acontecem, por contração activa do esfíncter uretral.

Quando estas medidas não se revelam suficientes, temos atualmente à disposição vários medicamentos. Os que têm sido mais usados têm sido os fármacos chamados anticolinérgicos, embora não com o sucesso que de início se esperava. Para estes resultados abaixo das expetativas contribuem, para além da relativa falta de eficácia dos fármacos, os seus efeitos laterais, as expetativas demasiado altas dos doentes perante uma doença crónica e sem terapêutica curativa e o desconhecimento ainda existente das causas desta disfunção. Felizmente, tem havido investigação significativa nesta área e um novo tipo de medicação apareceu no mercado nos últimos anos, com eficácia demonstrada e com menos efeitos laterais.

A maior parte dos doentes com sintomas incomodativos conseguem melhorar a sua qualidade de vida com as atitudes acima descritas, medidas comportamentais e medicação oral. Os doentes com sintomas que não melhoram (felizmente, uma minoria) são denominados de “refratários à terapêutica oral” e devem ser referenciados para centros onde terapêuticas mais invasivas como a injeção intradetrusor de toxina botulínica e a neuromodulação podem ser oferecidas a estes doentes, para melhoria da sua qualidade de vida.

Que mensagem gostaria de deixar, no âmbito desta doença?

A Bexiga Hiperativa nem sempre é compreendida pelos doentes como uma doença, mas a verdade é que esta pode ter impacto na sua qualidade de vida. Não devem aceitar os sintomas urinários incomodativos como um processo de envelhecimento normal. Devem recorrer ao médico. Quanto mais cedo a doença é diagnosticada e começa a ser tratada, mais hipóteses existem de se conseguir ter sucesso. Com o intuito de alertar para o impacto da Bexiga Hiperativa na vida dos doentes, foi lançada em Portugal uma campanha de sensibilização “Na Bexiga Mando Eu” com uma plataforma online que disponibiliza informação sobre a doença: http://nabexigamandoeu.pt/

Para terminar, como podemos manter a bexiga saudável?

Promover o bom funcionamento da bexiga é uma tarefa que se adota através de comportamentos simples na vida diária, como beber uma quantidade adequada de líquidos, introduzir o hábito de esvaziar a bexiga de cada 3 a 4 horas indo 4 a 6 vezes por dia à casa de banho, praticar técnicas de treino da musculatura do pavimento pélvico, fazer uma alimentação saudável rica em frutas e vegetais para prevenir a obstipação.

Sofia Esteves dos Santos
Nota:
As informações e conselhos disponibilizados no Atlas da Saúde não substituem o parecer/opinião do seu Médico, Enfermeiro, Farmacêutico e/ou Nutricionista.
Fonte: Atlas da Saúde
Foto:
Professor Carlos Martins da Silva

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